Uma reflexão sobre a Adoção Interracial

Questiono se para nos sentirmos pertencentes a um núcleo familiar precisamos nos parecer fisicamente com nossos pais, filhos e parentes de modo geral. Pergunto se para amarmos uma criança ela tem que ser uma cópia de nossos traços físicos, tem que lembrar a mãe ou o pai…
“Então como adotar uma criança tão diferente de mim? E se me perguntarem se de fato é meu filho ou filha ao verem as nossas diferenças físicas, o que vou dizer? Vai ficar na cara que adotei…e terei que explicar….e agora? Melhor não passar por esse constrangimento, então vou passar anos na fila da adoção esperando o sonhado “bebê Ferrari”, uma criança branca, olhos claros, sem nenhuma história anterior, que não traga nenhuma lembrança da vida antes de me ter como mãe ou pai, de preferência menina e recém nascida. Sim , isso, ai conseguirei de fato amar essa criança e me realizar como mãe ou pai. DECIDIDO. Ah….Longe de mim ser preconceituoso ou preconceituosa viu!”
E ai? O que dizer diante disso?
O sentimento de pertencimento parte da intenção, do amor e do acolhimento e passa bem longe de ter que ser igual. O significa de uma relação passa bem longe que qualquer detalhe relacionado a cor da pele, olhos, altura, etc. Para amarmos não precisamos ser parecidos com o outro fisicamente.
Claro que sermos parecidos uns com os outros em uma família contribui e facilita para lidarmos com algumas questões impostas pela sociedade preconceituosa na qual vivemos, que não aceita o diferente como natural. Porém não devemos nos curvar ao preconceito e sim enfrentá-lo. Não vamos deixar de adotar uma criança negra só porque somos brancos e vice-versa, vamos agir com coragem, ensinando que amor não tem cor. O amor supera todas as diferenças e isso posso dizer com experiência de causa, já que sou uma mãe branca por adoção, de uma menina negra.
Enfrentamos olhares de espanto e questionamento nas ruas quando saímos com a nossa criança, nos sentimos uma família colorida e linda, e o sentimento que vêm é orgulho e amor, e hoje não sei porque, aliás sei sim..rs, nem reparamos mais os olhares. Os outros não importam, o que de fato faz sentido é nossa família, os laços de afeto que construímos com a nossa pequena. E ai o vínculo está de fato feito, o sentido real de pertencimento a uma família vêm desses laços, desse acolhimento. Pronto, a criança está inserida em sua real família. Traz consigo sua história anterior que deve ser respeitada, afinal ela não é um objeto seu, é um sujeito de direito que tem as suas lembranças que vêm antes de você. Então analise as suas questões narcísicas, trabalhe o luto pelo filho idealizado e vá em busca do filho REAL.
Há milhares de crianças na fila da adoção esperando uma família REAL, não estão em busca de mães ou pais brancos ou negros, de olhos claros ou escuros, apenas buscam amor para assim se constituírem como sujeitos e se inserirem em um núcleo familiar saudável de fato. Perguntemos às crianças se elas preferem ter uma família agora ou esperar mais tempo ou a vida toda para encontrar uma família parecida com elas? Certamente iram responder: “eu quero ter um pai e/ou uma mãe, não importa sua aparência física”. O que é a cor de pele perto da necessidade vital, psicológica, existencial de ter uma família, amparo, amor, base, segurança?
Vamos amadurecer e refletir sobre as reais motivações psicológicas que nos guiam em direção a adoção de uma criança. O que queremos de fato?
Será que teremos que adotar somente crianças iguais a nós para ser mais fácil explicar aos outros depois? Por que temos que responder à essas perguntas? Não respondamos então! O que importa é aquela criança que te viu e te desejou para ser sua mãe ou pai, que busca cuidados parentais e amor. A criança que vc viu, tocou e sentiu que é sua ou seu filho. Nada mais que isso, o resto é puro desconhecimento e/ou preconceito.

Daniela Beraha