Sobre Realengo

A tragédia de semana passada em Realengo, levou as pessoas à necessidade de dar significado para um ato aparentemente desprovido de sentido: “Por que um homem entra numa escola e mata 12 crianças?”

Responder a essa pergunta não é fácil. No facebook, li comentários que falavam em misoginia, ligando o assassinato de mais meninas que meninos ao ódio contra o feminino. Em um blog usaram o termo feminicídio, afirmando ser esse um crime de ódio contra as mulheres.

Nos jornais, pipocavam todo o tipo de especulação dando novas interpretações para a motivação do crime: bullying, vingança, motivações religiosas, etc. Todas elas muito coerentes.

Nos telejornais, acompanhei o parecer do psiquiatra forense debatendo a possibilidade de ser um caso de psicose, outro afirmando se tratar de psicopatia.

De uma psicanalista ouvi que a carta escrita pelo assassino era nazista, relacionando o tema da pureza ao ideal nazista. 

Finalmente em 12 de abril, numa prova da rapidez com que chega para nós a informação nos tempos de hoje, divulgaram um vídeo com o discurso do próprio assassino, lançando mais luz sobre o motivo desse crime.

Uma vez esgotado o tema, isto é, quando não houverem novas informações sobre o caso, lentamente (será possível lentidão numa época em que quase tudo acontece tão rápido?) o impacto provocado pela tragédia será superado, pelo menos para nós, distantes o suficiente dos mortos e feridos. A mídia voltará seus holofotes para outras tragédias – e tragédias hoje em dia não faltam… Para os familiares e amigos, fica a dor da perda irreparável…



‘O que a psicanálise tem a dizer sobre essa tragédia? O que os psicanalistas podem fazer?’ 


É muito difundido um equívoco em relação ao analista, de que o analista é quem sabe o que se passa com aquele que o procura. Equívoco fundamental, por que sem esse engano não haveria pedido de análise, ninguém procuraria o analista e uma análise não seguiria adiante.

Para que o analista saiba o que se passa com quem o procura, só existe um modo: quem o procura precisa contar pelo que está passando. Isso possibilitará a passagem das entrevistas premilinares para o divã – para a análise.

Muitos pensam que a função do analista é dar sentido, interpretar, quando na verdade é trabalho do analisando dar significado à sua fala. O analista escuta.

Em O Tempo e o Cão, Maria Rita Kehl diz que a técnica recomenda que o analista não se envolva na sedução dostoievskiana da novela familiar de que o neurótico se serve para assegurar-se do sentido de seus sintomas e de suas identificações. Em outras palavras, se trata de impedir que o analisando desenvolva o “Dostoiévski”, a inflação de sentido tão cara ao neurótico, que recobre e justifica seu sintoma…

Em O tsunami, o câncer, a Aids e outras coisas que não têm sentido, Contardo Calligaris comenta a frase de Jacques Lacan, de que a psicanálise é uma espécie de paranóia dirigida:

A paranóia é aquela forma da personalidade que leva o sujeito a encontrar no mundo muito mais sentido do que lá está. Num delírio paranóico bem formado, há poucos fios soltos, tudo é costurado. Os acontecimentos são mensagens eventualmente divinas ou extraterrestres e de árdua interpretação, mas mensagens. Há pouquíssimo espaço para uma realidade que não seja justificada por um sentido.

De fato, no começo de uma psicanálise, acontece algo parecido com a paranóia: o sujeito examina seu passado e seu presente, procurando as explicações, as razões ocultas, os impulsos inconfessáveis, os desejos conscientes e inconscientes de seus pais, de seus ancestrais e de outros parentes próximos ou longínquos. É aquela coisa: se você hoje é bancário, é porque seu avô perdeu uma fortuna, porque sua mãe nunca sabia onde seu pai colocava o dinheiro e sempre se queixava de que a família não poupava nada. E mais cem ‘razões’; algumas, aliás, menos benignas.

Esse anseio paranóico de encontrar um sentido para tudo ou quase, no caso de uma psicanálise, é ‘dirigido’ (pelo psicanalista, é claro) segundo dois eixos.

Por um lado, trata-se de permitir ao paciente que encontre e elabore, para sua história e seu mundo, um sentido que não lhe seja demasiado custoso(…)

Por outro lado, a psicanálise (…) também deve, um belo dia, permitir que a gente encare a brutalidade do mundo. No fim de uma análise, espera-se que alguém possa sair do consultório de seu analista e levar, por exemplo, um vaso de flores na cabeça sem que lhe ocorra, nem por um instante, que se trate de um complô, de uma punição merecida por ousar se aventurar no mundo sozinho ou mesmo de uma vingança do próprio terapeuta abandonado. Às vezes, os vasos caem sem mais nem menos.

Atrás desse propósito da psicanálise, há a constatação de que, paradoxalmente, os humanos se queixam da falta de sentido, mas sofrem, na verdade, do contrário, ou seja, do excesso de sentido.”

Em psicanálise, fala-se em retorno do recalcado quando algo que não foi simbolizado pelo sujeito, retorna repetidamente como ato inconsciente. Dar sentido a essa repetição permite ao sujeito estar advertido do que repete e saber o motivo que o impele a isso.

Extrapolando esse conceito para fora do consultório, podemos falar que a tentativa de dar sentido para a tragédia de Realengo é uma forma de dar conta daquilo que não foi simbolizado pela sociedade, ou cultura, e que ficou debaixo do tapete (para usar a analogia que li no blog sobre misoginia)?

Seriam a misoginia, a intolerância religiosa, o bullying, a imitação de assassinos em série, etc, questões que ainda não foram faladas (simbolizadas) o suficiente e que retornam em atos de barbárie que chocam e nos levam a essa busca desenfreada por sentido?

Lucio Artioli dos Santos, 15 de abril de 2011.

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