Aventuras no universo

*Prefácio do Livro Aventuras de Dalva Bittencourt. Trechos do livro aqui

 

Você vê aquela estrela bem brilhante?

Sim.

Até onde sabemos, essa estrela pode ter desaparecido um milhão de anos atrás e a sua luz levou todo esse tempo para chegar até nós.

O que você está dizendo… Que aquela estrela não está lá?

Que ela pode não estar lá.

Mesmo eu conseguindo vê-la com os meus próprios olhos?

Isso mesmo!

Esse é um pensamento muito perturbador… Porque quando eu vejo algo com os meus próprios olhos, eu gosto de saber que isso realmente está lá… Porque, caso o contrário, pode tornar-se insuportável viver… A gente precisa ser capaz de confiar nas coisas.

O diálogo entre Irmy (Mia Farrow) e Kleinman (Woody Allen), personagens do filme Neblina e Sombras de 1991, permite uma leitura ao estilo do pensamento Samkhya, um dos mais antigos sistemas filosóficos da Índia, nascido aproximadamente no século VI antes de nossa era.

Os filósofos dessa escola consideravam o indivíduo como cenário de um drama cósmico, onde o dilema do mundo é o dilema do indivíduo.

Tudo o que há no cosmos, diziam eles, resulta da primeira manifestação da matéria primordial.

Não é muito diferente da concepção de Freud a respeito da Coisa (das Ding, em alemão), o objeto primordial perdido para sempre no ser humano.

O objeto perdido tem estatuto de fundador da psique humana, assim como a grande explosão – o big bang – deu origem ao universo, de acordo com o discurso científico.

A saga que cada um de nós empreende ao longo da vida poderia se resumir na busca incessante por esse objeto que não está em nenhum lugar, objeto que um dia existiu, porém não mais…

A impossibilidade de recuperar a Coisa – se é que algum dia realmente a tivemos – nos impulsiona aos demais objetos do mundo. No entanto, não temos acesso direto a esses objetos e temos que contar com os significantes – as palavras – para intermediar nossa relação com as coisas, as vestindo, por assim dizer, com significados.

Desde o nascimento, somos expostos ao caos sonoro – sonoridade pura, selvagem, essencialmente sem sentido. Esses sons afetam nossos corpos… a ressonância deles reverbera em nós produzindo gozo indistinto. Recorremos ao Outro – ao campo da linguagem – para atribuir significado a esses sons e sofisticar o acesso ao prazer através da produção de sentido.

Das Ding: Big Bang!

Um verso ressoando indistintamente através da fria escuridão espaço-temporal.

Universo = Ôm

A luz das estrelas que não existem mais é um véu luminoso que cobre sua ausência. Testemunha de sua existência em algum lugar longínquo no espaço-tempo atesta, simultaneamente, a inexistência desse objeto-luz e a relatividade do espaço e do tempo.

As palavras que usamos para vestir os objetos que nos rodeiam funcionam como a luz das estrelas: preenchem o vazio deixado pela ausência da Coisa.

Graças ao fato de sermos seres falantes, somos capazes de simbolizar das Ding, esse vazio que não cessa de não se inscrever, dando sentido para a nossa existência e transformando o universo.

O poeta escreve a partir do vazio que o atravessa e pelo qual atravessa. Brinca sério com a palavra, mostrando pra gente que palavra é som e invenção: invensom. A palavra-brinquedo diverte e subverte. Significa o nada.

Quando o ser falante toma consciência do vazio que o move, significando o caos ao seu redor a ponto de criar cosmologias que dão conta da origem do universo, o cosmos toma consciência de si próprio.

Lucio Artioli dos Santos, 2 de fevereiro de 2014.