Adolescentes em psicoterapia

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(Crédito da arte: Aura María)

As mudanças biológicas da puberdade inauguram a transição entre infância e vida adulta. Marcam o final da infância e se impõem, como se surgissem do exterior, colocando o adolescente no lugar de espectador impotente do que ocorre no seu próprio organismo.

O desenvolvimento dos caracteres sexuais secundários acompanhado do início da menstruação nas moças e do começo da produção de sêmem nos rapazes são as principais provas de realidade de que o corpo infantil está se perdendo para sempre.

Essas alterações orgânicas desencadeiam como contrapartida transformações psicológicas – uma resposta psíquica aos sinais emitidos pela realidade corporal. Instauram o período de luto pela perda do corpo de criança, da identidade infantil e da relação com os pais da infância.

Luto caracterizado por uma luta de fato. Trabalho de elaboração lento e muitas vezes árduo que resultará na produção de uma nova identidade e na entrada ao tão desejado e temido mundo dos adultos.

Soma-se às modificações corporais os imperativos do mundo externo que exigem do adolescente novas pautas de convivência. Será cobrado e depreciado caso lance mão da regressão para a identidade infantil como mecanismo de defesa frente as novas demandas sociais.

Um adolescente com recursos para verbalizar o que está passando, poderia resumir o trabalho de luto da seguinte maneira: “Não sou uma criança, perdi minha condição de criança; os meus pais não são os pais de uma criança, mas os pais de alguém prestes a se tornar um adulto; eu tenho que me comportar de acordo com minha imagem corporal que se assemelha à de um adulto” (Aberastury, 1981).

O outro lado da moeda no percurso que vai desde a infância rumo a vida adulta, é a dificuldade enfrentada pelos pais em aceitar o crescimento de seu filho e estabelecer uma nova relação com ele.

A adolescência do filho transforma toda a família criando problemas entre as gerações nem sempre bem resolvidos: “Ocorre que também os pais vivem os lutos pelo filho pequeno, pela sua identidade de criança e pela sua relação de dependência infantil. (…) Também os pais tem que se desprender do filho criança e evoluir para uma relação com o filho adulto, o que impõe muitas renúncias de sua parte.

Ao perder para sempre o corpo do seu filho criança, vê-se enfrentado com a aceitação do porvir, do envelhecimento e da morte. Deve abandonar a imagem idealizada de si mesmo, que seu filho criou e na qual ele se acomodou. Agora já não poderá funcionar como líder ou ídolo e deverá, em troca, aceitar uma relação cheia de ambivalências e de críticas. Ao mesmo tempo, a capacidade e as conquistas crescentes do filho obrigam-no a enfrentar-se com suas próprias capacidades e avaliar suas conquistas e fracassos. Neste balanço, nesta prestação de contas, o filho é a testemunha implacável do realizado e do frustrado” (Ibid., 1981).

Como podemos ver, os desafios são muitos para os adolescentes e seus pais.

A escuta atenta de um psicoterapeuta propicia o acolhimento e a possibilidade de compreensão dessas questões. Como a adolescência também é caracterizada por ser um período de intensa criatividade, a psicoterapia, ajudando no desenvolvimento dos recursos psíquicos do adolescente, pode estimular o jovem a criar soluções saudáveis para realizar sua passagem pela puberdade.